FRIGIDARIUS (frigidário - banho frio)
O olhar era cansado mas a cara, aquela cara de maxilares cerrados imprimiam um novo vigor a cada movimento de braços. Num movimento de quem semeia milho em terra arada puxa o lençol para trás. volta-se e por breves instantes apoia secamente as mão sobre a cómoda. Por entre os ombros ergue a cabeça e como uma revelação vê: o passado, o presente e o seu futuro... pega na tina de agua morna numa tira de plástico e aproxima-se da cama:
Repousa uma massa daquilo que um dia foi gente, foi!? um saco flácido de ossos que sob a acção do calor parece ter derretido sobre aquela cama.
Rola uma parte para cima do plástico, com uma das mãos faz uma fugaz caricia na cara e com a outra mão afoga uma esponja na tina. A agua é tépida e até lhe dá algum prazer, pensa: talvez o ultimo antes da partida derradeira. Levanta-lhe um braço com a mão esquerda e com a direita fricciona a esponja. Os olhos estão semicerrados o maxilar parece colado à mandíbula e a respiração é audível... da outra boca um buraco de onde se avista uma massa mutável nem um aí se ouve.








